Os riscos climáticos começam a deixar de ser uma variável tratada apenas pelas áreas de meio ambiente e Defesa Civil para entrar também no campo da gestão fiscal. Para as secretarias de Fazenda, isso significa incorporar de forma mais estruturada os efeitos de eventos extremos e vulnerabilidades climáticas sobre ativos públicos, despesas, investimentos e planejamento orçamentário.
Esse movimento esteve no centro de uma reunião do Grupo de Trabalho de Financiamento Climático Subnacional, ligado ao Fórum Nacional de Secretários Municipais de Fazenda e Finanças. O encontro reuniu representantes de 43 municípios para discutir a Taxonomia Sustentável Brasileira e a evolução dos padrões de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade.
Embora relacionados, eles cumprem funções diferentes. A taxonomia cria critérios para identificar atividades, ativos e projetos alinhados a objetivos ambientais, climáticos e sociais. O reporte, por sua vez, busca mostrar como riscos e oportunidades ligados ao clima podem afetar financeiramente uma entidade pública.
Identificar o que já é investimento climático
A Taxonomia Sustentável Brasileira foi instituída em 2025 e pode ser utilizada também por estados e municípios. Para as administrações locais, uma de suas aplicações possíveis é ajudar a reconhecer e classificar investimentos que contribuem para adaptação climática, mitigação de emissões ou outros objetivos sustentáveis.
Essa classificação pode parecer simples, mas nem sempre é. Durante o encontro, o secretário de Fazenda de Contagem, em Minas Gerais, relatou que o município tinha dificuldade para identificar despesas diretamente relacionadas ao clima. Uma análise mais detalhada da execução orçamentária mostrou que ações de mobilidade e sustentabilidade já estavam sendo realizadas, embora não fossem necessariamente reconhecidas dessa maneira.
Esse é um problema de informação. Uma prefeitura pode investir em drenagem, mobilidade, eficiência energética, recuperação ambiental ou infraestrutura resiliente sem conseguir consolidar quanto aplica nessas áreas ou demonstrar de maneira padronizada a finalidade desses recursos.
Criar critérios comuns melhora essa leitura e pode ajudar tanto na prestação de contas quanto na estruturação de projetos e na busca por financiamento. Mas isso exige que orçamento, contabilidade e áreas responsáveis pelas políticas públicas consigam associar despesas e investimentos a objetivos mensuráveis.
Risco climático começa a entrar no reporte financeiro
A discussão avança também para o modo como os governos apresentam sua situação financeira. O International Public Sector Accounting Standards Board (IPSASB), organismo internacional responsável por padrões de contabilidade para o setor público, publicou em 2026 sua primeira norma específica de divulgação de informações relacionadas ao clima.
A lógica é incorporar às informações financeiras riscos que hoje podem permanecer dispersos. Uma prefeitura com prédios públicos em áreas sujeitas a inundação, por exemplo, possui uma exposição que pode gerar custos futuros. O mesmo vale para infraestrutura vulnerável, aumento recorrente de despesas emergenciais ou necessidade crescente de investimentos em adaptação.
Isso amplia o olhar das secretarias de Fazenda. Além de receitas, despesas, dívida e disponibilidade financeira, a análise tende a precisar compreender quais ativos estão expostos, quanto determinados eventos podem pressionar o orçamento e quais investimentos são necessários para reduzir essas vulnerabilidades.
A norma internacional começa a valer para períodos anuais iniciados em janeiro de 2028. No encontro da FNP, a Secretaria do Tesouro Nacional informou que pretende concluir até o fim de 2026 o processo de convergência desse padrão ao arcabouço brasileiro.
O desafio começa nos dados
Para produzir esse tipo de informação, não basta criar um novo relatório. Será necessário conectar dados que hoje estão espalhados entre Fazenda, planejamento, obras, meio ambiente, Defesa Civil, mobilidade, habitação e outras áreas.
O município precisará saber, por exemplo, quais ativos públicos estão em áreas de risco, quanto eventos extremos já custaram, quais despesas podem ser classificadas como investimentos climáticos e quais projetos reduzem vulnerabilidades futuras.
Isso aproxima a pauta climática de problemas já conhecidos da gestão pública: qualidade dos cadastros, integração de sistemas, classificação das despesas, definição de indicadores e capacidade de acompanhar resultados.
A mudança mais relevante, portanto, não está apenas na criação de novas categorias ou relatórios. Está em fazer com que o risco climático passe a integrar a informação usada para decidir onde investir, quais ativos proteger e quanto determinadas vulnerabilidades podem custar ao município.
Quando o clima chega à contabilidade e ao orçamento, deixa de ser apenas uma variável ambiental. Passa a ser também uma questão de risco fiscal e capacidade de planejamento.
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