Em municípios de até 30 mil habitantes, 91% das conexões de fibra óptica são fornecidas por prestadoras de pequeno porte. No Nordeste, essas empresas concentram 69% de todos os acessos de banda larga. Os números mostram que uma parcela importante da expansão da conectividade brasileira está sendo sustentada não pelas grandes operadoras nacionais, mas por milhares de provedores menores, com atuação regional ou local.
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) mostra, porém, um contraste. Ao mesmo tempo em que essas empresas ganharam importância para levar banda larga a localidades onde a oferta é mais limitada, continuam enfrentando obstáculos relacionados ao compartilhamento de postes, acesso a financiamento, concorrência ilegal e criminalidade organizada, em determinados territórios.
O problema deixa de ser apenas setorial quando se considera o que depende dessa infraestrutura. Conectividade passou a sustentar acesso a serviços públicos digitais, atividade econômica e diferentes formas de participação social. A própria auditoria trata a internet como infraestrutura essencial e recomenda mudanças em políticas destinadas justamente aos agentes que ajudam a expandi-la fora dos principais mercados.
Infraestrutura
Uma das barreiras mais relevantes está onde as redes precisam fisicamente passar: os postes de energia elétrica.
Empresas de telecomunicações utilizam essa infraestrutura para instalar cabos, mas o compartilhamento envolve regras e preços definidos em uma relação que também inclui as distribuidoras de energia. O TCU identificou insegurança jurídica nesse ambiente e recomendou à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), em articulação com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), avançar na revisão das regras aplicáveis.
A questão tem efeito direto sobre expansão e regularização das redes. Para um pequeno provedor, dificuldades para obter espaço, organizar contratos ou prever quanto pagará pelo uso da infraestrutura podem aumentar o custo de chegar a uma nova localidade.
O Tribunal não definiu novo preço nem alterou imediatamente as regras de ocupação. A recomendação é para que a revisão regulatória tenha cronograma, etapas e prazos mais claros.
O acesso ao crédito aparece no mesmo diagnóstico. Redes de fibra exigem investimento antecipado em cabos, equipamentos e expansão territorial, enquanto o retorno acontece ao longo do tempo com a entrada de assinantes.
O TCU reconheceu avanços recentes nos mecanismos ligados ao Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), mas recomendou aperfeiçoar as condições disponíveis às prestadoras de pequeno porte. O ponto é especialmente relevante porque empresas menores podem ter mais dificuldade para apresentar garantias ou acessar estruturas tradicionais de financiamento.
Concorrência ilegal
A auditoria encontrou ainda um problema que ultrapassa a regulação econômica.
Em algumas localidades, furto de cabos, atuação de provedores clandestinos e presença de organizações criminosas passaram a interferir diretamente na prestação dos serviços. Segundo o TCU, há territórios em que o domínio criminoso favorece inclusive a substituição forçada de provedores regulares por operações paralelas.
Esse tipo de situação não pode ser resolvido apenas por uma agência reguladora. Exige integração entre fiscalização, órgãos de segurança, Ministério Público e estruturas responsáveis pelas políticas de telecomunicações.
Por isso, uma das recomendações é criar mecanismos de compartilhamento de informações sobre provedores ilegais com o Ministério Público e fortalecer a coordenação para enfrentar mercados ilícitos.
A constatação acrescenta uma dimensão importante ao debate sobre capacidade de execução. Uma empresa pode ter tecnologia, demanda e recursos para expandir uma rede e ainda assim encontrar um território no qual o risco operacional compromete o investimento.
Política de conectividade
O Brasil tinha cerca de 56,8 milhões de acessos de banda larga fixa em julho de 2026, distribuídos entre aproximadamente 21 mil prestadoras. Mais de 80% dessas conexões já utilizavam fibra óptica.
Nesse mercado pulverizado, uma política nacional desenhada apenas a partir da realidade das maiores empresas corre o risco de não responder às condições de quem efetivamente conecta parte relevante dos municípios menores.
O próprio TCU concluiu que as dificuldades de infraestrutura, financiamento, competição e segurança não devem ser tratadas isoladamente. Elas se combinam e aumentam o custo de expansão justamente em mercados onde a escala econômica tende a ser menor.
Isso muda a pergunta de política pública. Não basta estabelecer metas nacionais de conectividade ou disponibilizar linhas de financiamento. É necessário observar quem consegue executar a expansão em cada território e quais condições impedem esse agente de chegar mais longe.
Essa lógica também interessa diretamente à transformação digital do Estado. Um município pode digitalizar serviços, implantar plataformas educacionais, ampliar teleatendimento ou desenvolver estratégias baseadas em dados. Mas a capacidade de utilizar essas soluções continua dependente de infraestrutura disponível para cidadãos, empresas e administração pública.
O dado de 91% ajuda a tornar visível uma parte dessa infraestrutura que pode passar despercebida nas grandes políticas nacionais. Pequenos provedores não são apenas participantes periféricos do mercado: em milhares de municípios, eles estão no centro da entrega.
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